Manuel N.

"Eu sou um homem de 39 anos. Sou casado. E eu quero algo que pensava já ser meu: eu quero viver para ver a minha filha crescer; eu quero envelhecer com o amor da minha vida, a minha mulher. Eu sempre me senti mal com o horário de verão, especialmente porque eu era sempre forçado a acordar muito cedo: primeiro para ir para a escola, depois para ir para a Universidade, e agora para ir para o trabalho. Sempre me foi dito, por todos ao meu redor, que as pessoas se habituam. Sempre que eu indicava que me sentia cansado, os meus colegas faziam sempre piadas em como eu era demasiado preguiçoso para as manhãs.  E eu sorria envergonhado em aceitação, e, envergonhadamente, passei a ser introvertido quanto ao sentir-me mal. Este tem sido o meu modo de agir durante a minha vida inteira.

No ano passado, durante uma discussão com a minha mulher, eu senti-me como se fosse desmaiar. É de notar que eu nunca desmaiei na minha vida. O que tinha realmente acontecido, contado mais tarde pela minha mulher, foi uma perda de memória temporária. Eu continuamente repeti a mesma frase vezes sem conta, e não tinha a certeza de que as memórias, das quais me tentava relembrar, realmente tinham acontecido, ou se tinham apenas sido parte de um sonho. 

O meu médico de família imediatamente tomou ação. Ele atestou medicamente que deveria ficar de baixa um mês e as visitas ao médico multiplicaram-se. Eu fiz uma série de exames: ressonâncias magnéticas, análises ao sangue, monitorização durante 24 horas da pressão arterial, exames neurológicos, e outros, cujos nomes não consigo realmente pronunciar. Nós tivemos a opinião de especialistas, indivíduos diferentes a emitirem os seus pareceres e recomendações para mais exames médicos. No final, nada foi realmente encontrado. E então começaram os comentários: “isso é psicossomático”, “isso é stresse”, “você devia meditar ou fazer yoga”. Quando sugeri que tal podia ser falta se sono, que os horários laborais não eram adequados, que a hora de Verão não era adequada, mais uma vez recebi má cara…

Os meses seguintes foram duros. Os incidentes de memória continuaram, e tornaram-se mais frequentes. E tive que considerar os piores cenários… A minha filha tinha na altura 2 anos e não conseguia aceitar a ideia de não poder estar presente na sua vida.

A minha esposa tomou responsabilidade por todas as obrigações pertencentes à nossa vida pessoal. Ela obrigou-me a descansar o mais possível e a seguir o meu próprio ritmo. Naquele Verão, eu passei as 2 semanas das minhas férias literalmente a dormir. Não foi exatamente divertimento para a família.

Com o final de outubro veio a hora padrão e a tudo melhorou significativamente. Os meses foram passando, e março estava a aproximar-se novamente e, com ele, a hora de Verão. Eu falei com o meu chefe acerca de trabalhar menos e começar o horário de trabalho mais tarde. Ele foi recetivo e prestável. Eu iria ganhar muito menos dinheiro, mas o dinheiro não consegue comprar a vida, e, como tal, aceitei o acordo sem mais pensar.

Mas depois a doença coronavírus-19 assolou o Mundo. A minha companhia precisava da ajuda de todas as pessoas, já que a situação se tinha tornado bastante complicada. Nós arranjámos circunstâncias de trabalho remoto, com horários de trabalho mais tardios. Graças a tal, eu e a minha família podíamos ignorar a hora de Verão. E esta é a conclusão: até agora, eu não voltei a ter problemas de saúde; eu sou perfeitamente capaz de cumprir o horário completo do meu horário, o meu valor não só foi reconhecido mas recompensado com uma promoção; e finalmente compreendo que todos estes anos a sorrir feito parvo, envergonhadamente por causa de preconceitos, quase me mataram e puseram em risco o que amo acima de tudo. Esta loucura tem de acabar. E com ela, também o horário de verão."

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