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(Mais) Um Argumento Para Não Mudar Para o Horário de Verão


Ilustração de uma gotícula respiratória contendo o vírus SARS-CoV-2 por David S. Goodsell, RCSB Protein Data Bank; doi: 10.2210/rcsb_pdb/goodsell-gallery-024

O sono.

Não é novidade que as pessoas em geral, os portugueses especificamente, não dormem nem bem nem o suficiente [1]. E dormir bem está implicado em praticamente todas as coisas que nos são importantes, desde o quão bem nos sentimos [2,3], ao quão bem parecemos [4,5], passando pela nossa saúde [6,7], pelo sucesso profissional e o dinheiro que metemos ao bolso [8,9], e pela nossa longevidade [10].


Mas se queremos dormir bem e adequadamente, temos que dizer "adeus" ao mito de que podemos escolher quando dormimos. O nosso relógio interno dá-nos um intervalo de tempo no qual o sono é eficaz ou mesmo possível. Tal como outras características individuais, como a cor do cabelo ou dos olhos, o relógio interno é genético e as mudanças que podem ser aplicadas são de curto espectro [11].


Ah! E há outra coisa dependente do sono: a imunidade.


A relação entre o sono e a imunidade têm sido continuamente demonstradas em estudos científicos. A diminuição da qualidade de sono já foi implicada na susceptibilidade às constipações [12,13], no debilitar das respostas imunitárias em geral [14], na redução da produção de anticorpos em resposta à vacina da Hepatite B [13], e no despoletar das respostas auto-imunes como no caso das doenças alérgicas [15].


Quando confrontados com esta informação, não nos deverá surpreender o facto de Portugal ter tido dos números mais elevados do mundo em casos de infecção e mortes relativos ao número de habitantes associadas ao vírus SARS-CoV-2, responsável pela pandemia COVID-19 [16,17].


Por isso especialistas em sono e ritmo circadiano estão preocupados com o sono no contexto desta pandemia, pois conjecturam que perturbá-lo levará ao aumento da replicação e disseminação do vírus, assim como ao agravamento das infecções agudas [18,19]. E estas preocupações devem ser tomadas com seriedade. Um estudo retrospectivo em 449 pacientes apresentando Linfocitopenia, hospitalizados com COVID-19 em Wuhan, na China, concluiu que uma má qualidade de sono atrasou a recuperação da condição e aumentou a necessidade dos cuidados intensivos [20].


Vivemos com o horário de Verão, que é o avançar dos relógios em uma hora, 7 meses por ano. Isso significa que, durante este período, todos os nossos agendamentos ocorrem uma hora mais cedo, embora o relógio de pulso nos diga que a hora é a mesma. Tal rouba sono, como tem sido invariavelmente observado em estudo após estudo [9,21,22]. A "matemática" aqui não é complicada: se o horário de Verão piora o sono, e se o piorar do sono piora a imunidade, o horário de Verão tem um impacto negativo na nossa imunidade. É então válido assumir que evitar os horários de Verão pode reduzir a proliferação do vírus e reforçar a eficiência da vacinação.


Propõe-se neste artigo o seguinte: que se pare com a mudança de hora e se alinhe a Hora Legal pelo fuso horário que melhor reflecte a hora natural. Para Portugal Continental, o fuso-horário mais próximo da hora natural seria UTC-00:30, mas tal opção, presentemente, não está sequer contemplada. Como tal, o Horário Padrão (UTC±00:00) é melhor opção que o Horário de Verão (UTC+01:00).


E há precedente para estas decisões. No passado, nações encontraram necessário alterar a Hora Legal por razões menos importantes que COVID-19, uma pandemia responsável por uma parálise à escala mundial e pela morte, até à data, de cerca de 3 milhões de pessoas. Por isso os governos podem e devem novamente adoptar, pelo menos, os respectivos horários padrão, para termos as melhores condições possíveis de sobreviver, resistir, e derrotar o vírus, e regressar à normalidade socio-económica mais repousados.



Referencias Bibliográficas:


[1]. Tiago Soares. O nosso mal é o sono. Jornal Expresso (2019). https://expresso.pt/sociedade/2019-06-30-O-nosso-mal-e-o-sono

[2]. Randler, C. & Vollmer, C. Aggression in Young Adults — A Matter of Short Sleep and Social Jetlag? Psychol Rep 113, 754–765 (2013).

[3]. Foster, R. G. et al. Sleep and Circadian Rhythm Disruption in Social Jetlag and Mental Illness. in Progress in Molecular Biology and Translational Science vol. 119 325–346 (Elsevier, 2013).

[4]. Maukonen, M. et al. The associations between chronotype, a healthy diet and obesity. Chronobiology International 33, 972–981 (2016).

[5]. Almoosawi, S., Palla, L., Walshe, I., Vingeliene, S. & Ellis, J. Long Sleep Duration and Social Jetlag Are Associated Inversely with a Healthy Dietary Pattern in Adults: Results from the UK National Diet and Nutrition Survey Rolling Programme Y1–4. Nutrients 10, 1131 (2018).

[6]. Gu, F. et al. Longitude Position in a Time Zone and Cancer Risk in the United States. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev 26, 1306–1311 (2017).

[7]. Roenneberg, T. & Merrow, M. The Circadian Clock and Human Health. Current Biology 26, R432–R443 (2016).

[8]. Haraszti, R. Á., Ella, K., Gyöngyösi, N., Roenneberg, T. & Káldi, K. Social jetlag negatively correlates with academic performance in undergraduates. Chronobiology International 31, 603–612 (2014).

[9]. Giuntella, O. & Mazzonna, F. Sunset time and the economic effects of social jetlag: evidence from US time zone borders. Journal of Health Economics 65, 210–226 (2019).

[10]. Borisenkov, M. F. Latitude of Residence and Position in Time Zone are Predictors of Cancer Incidence, Cancer Mortality, and Life Expectancy at Birth. Chronobiology International 28, 155–162 (2011).

[11]. Roenneberg, Pilz, Zerbini, & Winnebeck. Chronotype and Social Jetlag: A (Self-) Critical Review. Biology 8, 54 (2019).

[12]. Cohen, S., Doyle, W. J., Alper, C. M., Janicki-Deverts, D. & Turner, R. B. Sleep habits and susceptibility to the common cold. Arch Intern Med 169, 62–67 (2009).

[13]. Prather, A. A. et al. Sleep and Antibody Response to Hepatitis B Vaccination. Sleep 35, 1063–1069 (2012).

[14]. Man, K., Loudon, A. & Chawla, A. Immunity around the clock. Science 354, 999–1003 (2016).

[15]. Paganelli, R., Petrarca, C. & Di Gioacchino, M. Biological clocks: their relevance to immune-allergic diseases. Clinical and Molecular Allergy 16, 1 (2018).

[16]. Manuel Esteves & Pedro Curvelo. Portugal é o segundo país do mundo com mais mortes por covid. jornal de negocios. https://www.jornaldenegocios.pt/economia/coronavirus/detalhe/portugal-e-o-segundo-pais-do-mundo-com-mais-mortes-por-covid.

[17]. Coronavirus (COVID-19) Cases - Statistics and Research. Our World in Data https://ourworldindata.org/covid-cases.

[18]. Meira e Cruz, M., Miyazawa, M. & Gozal, D. Putative contributions of circadian clock and sleep in the context of SARS-CoV-2 infection. Eur Respir J 55, 2001023 (2020).

[19]. Ray, S. & Reddy, A. B. COVID-19 management in light of the circadian clock. Nat Rev Mol Cell Biol 21, 494–495 (2020).

[20]. Zhang, J. et al. Poor-sleep is associated with slow recovery from lymphopenia and an increased need for ICU care in hospitalized patients with COVID-19: A retrospective cohort study. Brain Behav Immun 88, 50–58 (2020).

[21]. Barnes, C. M. & Wagner, D. T. Changing to daylight saving time cuts into sleep and increases workplace injuries. Journal of Applied Psychology 94, 1305–1317 (2009).

[22]. Wagner, D. T., Barnes, C. M., Lim, V. K. G. & Ferris, D. L. Lost sleep and cyberloafing: Evidence from the laboratory and a daylight saving time quasi-experiment. Journal of Applied Psychology 97, 1068–1076 (2012).

[23]. Roenneberg, T. et al. Why Should We Abolish Daylight Saving Time? J Biol Rhythms 34, 227–230 (2019).

[24]. Roenneberg, T., Kumar, C. J. & Merrow, M. The human circadian clock entrains to sun time. Current Biology 17, R44–R45 (2007).