• Dr. João Lipinsky Nunes

"Há mais de 100 anos que não sei que horas são..."

A 26 de Maio de 2021, Portugal fez 110 anos de desajuste da hora legal. A História do horário de Verão não tem benesses mas sim prejuízos. Estará Portugal no século XXI pronto para aprender a sua lição do passado?

 

Através do decreto de lei de 26 de Maio de 1911, Portugal concordou com a padronização da hora portuguesa segundo o principio aceite na Convenção de Washington de 1884. Mas, apesar de Portugal Continental estar na sua maioria localizado no fuso horário UTC-01:00, o fuso horário adoptado foi UTC±00:00, dando início a mais de um século de desajuste da hora legal.

Portugal Continental adoptou a 1911 uma espécie de "Horário de Verão", um avanço da hora em 30 a 40 minutos que foi já na altura visto como ridículo e disruptivo.

O arquipélago dos Açores adoptou UTC-02:00 e o arquipélago da Madeira adoptou o fuso horário UTC-01:00.

O horário de Verão permanente foi introduzido pela primeira vez durante a primeira Guerra Mundial. Durante os anos de 1942-1945 durante a segunda Guerra Mundial, Portugal adoptou inclusive um duplo-horário de Verão.

Os anos subsequentes viram várias mudanças no fuso horário adoptado como padrão, sempre para leste, o que teve sempre um impacto negativo na população. Mas o regime da hora, mais ou menos como hoje o conhecemos, foi adoptado a 1976: UTC±00:00 como horário padrão e UTC+01:00 como horário de Verão.

Não aprendendo com as experiências do passado, o governo de Aníbal Cavaco Silva em 1992 decide mudar a hora padrão de UTC±00:00 para UTC+01:00, regendo-se o horário de Verão por UTC+02:00. Ou seja, como horário padrão passou-se a ter o prévio horário de Verão e uma mudança de hora para um duplo-horário de Verão. A medida tinha intenções de promover a poupança energética e aproximar as horas laborais portuguesas às dos restantes países europeus. Tal foi desastroso. Crianças e adultos experienciaram graves problemas de saúde e de distúrbios de sono, visto que no inverno o sol ainda não tinha raiado às 9:00 e, no Verão, o sol só desaparecia no horizonte perto da meia-noite. Porém em vez de poupança energética, uma das razões que motivou a mudança do fuso-horário, aconteceu exactamente o oposto: a despesa em energia subiu, assim como a poluição produzida.


A 8 de Março de 1996, o recém-eleito Governo de António Guterres, atendendo às queixas e mal-estar populacional, fez Portugal regressar ao fuso horário UTC±00:00, embora mantendo a mudança da hora para o horário de verão corrente que observa o fuso horário UTC+01:00.

Façamos o ponto da situação da Hora Legal Portuguesa:

  • Portugal desde 1911 que desvirtua a hora do relógio, reflectindo este horas reais mais matutinas, devido à adopção de fusos horários demasiado a Leste da nossa posição geográfica.

  • Tal foi sempre unilateralmente decidido por governos e não por pressão populacional, ou seja, a população nunca pediu Horários de Verão.

  • Porém, a resposta populacional face a estes desajustes foi sempre negativa, tendo então esta "forçado" os governos, com a excepção dos anos de Guerra e ditadura, a adoptar fusos horários mais a Oeste.

  • O impacto do horário de Verão está melhor documentado na história recente e o que se verifica é que não há quaisquer ganhos, nem mesmo na dita energia. O que se "ganhou" foi sempre um mal-estar populacional generalizado, acompanhado pelo aumento dos problemas de saúde e dos distúrbios de sono.


Considerando os fatos científicos existentes, e as experiências do passado, Portugal Continental deve, no mínimo, adoptar o horário padrão permanente UTC±00:00. Ideal seria a adopção de um fuso horário geograficamente mais adequado, como UTC-01:00 ou UTC-00:30, mas essas opções não parecem estar a ser contempladas politicamente. Aliás, o público em geral parece não estar ciente de que vive com um "mini-horário" de Verão desde 1911, escondido sob o desajuste do relógio, razão pela qual as "manhãs" de Inverno nos parecem tão escuras.


Se a adopção do horário padrão permanente será suficiente, não o sabemos: as nossas gentes de 1911 parecem pensar que até esse desajuste é em demasia. Mas é neste momento a melhor opção na mesa. Uma coisa é certa: um país sofredor nunca pode ser um país vencedor.